É fato que a literatura tem falado mais
alto na vida do jornalista e escritor Osair Vasconcelos. Seus olhos que por
tanto tempo estavam voltados para os principais acontecimentos do Rio Grande do
Norte, hoje miram para o banal, para o irrelevante que não acrescenta nada na
vida da cidade. Mas o insignificante ganha nos contos e crônicas de Osair algo
de especial. E isso sem recorrer à eloquência vazia – na prosa do autor, é a
poesia das palavras que faz as miudezas do cotidiano brilharem. Seu último
livro, “Retratos fora da parede”, publicado em 2018 pela sua Editora Z, mostra
bem essa nova fase.
NA MEMÓRIA DE OSAIR VASCONCELOS, UMA MACAÍBA COM BANHOS DE RIO E AÇUDE,
GALINHAS NOS QUINTAIS E PASSEIOS NAS PRAÇAS
Mas chegar ao texto fictício foi por etapas –
afinal, não deve ser nada fácil romper com os padrões noticiosos se você está a
mais de 40 anos habituado a eles. E, no caso de Osair, foi no fundo das
próprias memórias que ele deu impulso para produzir sua literatura. Sendo mais
preciso, foi nas reminiscências do tempo de menino em Macaíba, sua terra de
origem, que ele flertou com a ficção. É de lá que surgem ideias de personagens
e narrativas. Os livros “A cidade que ninguém inventou" (2010) e “As
pequenas histórias" (2015) são exemplos da força que a cidade tem em sua
produção literária.
E é sobre a Macaíba da sua infância e juventude,
lugar de belos casarões e atmosfera bucólica, da rua do Gango, formada só por
cabarés, da figuras pitorescas, que se lembradas fazem os mais saudosos “tremer
nas bases”, é sobre essa Macaíba específica que Osair conversa nesta
entrevista.
Embora não visite sua terra com grande
frequência, o escritor nunca perdeu os laços. “Vou mais a Betúlia, onde mora
Manuel, meu pai, o povoado mais bonito num território de 500 léguas entre o
Jundiaí e o primeiro rio da Bahia”, diz o macaibense, que, não importa pra onde
vá, levará sempre consigo seu chão de menino. “Ando pelo mundo e só me vejo em
Macaíba. Pode ser um defeito meu, mas é uma virtude da cidade onde nasci e vivi
até a juventude. Lá, aprendi a aprender”. Confira a entrevista!

Osair com amigos
Osair relembra as histórias quando
menino em Macaíba
A MACAÍBA DE MENINO
Os tempos eram outros, para quem era criança e
jovem. Vivíamos a rua. Jogávamos bola nas calçadas, em campos cercados de
coqueiros. Íamos ao cine Universal, Columbia ou Cometa. Sentávamos nos batentes
do cartório de seu Leandro ou da loja de seu Edmilson para conversar até
altas horas. Passeávamos na praça à noite: os meninos num sentido, as
meninas no sentido contrário. Tomávamos banho de rio ou de açude, roubávamos
mangas e cajus dos sítios, galinhas dos quintais e beijos das meninas. E tanta
coisa mais que tive de escrever um livro para contar, “As pequenas
histórias" (2015).
RUA DOS CABARÉS
Até os anos 70, apesar da proximidade com a
capital, Macaíba era uma cidade do interior. Tinha belos casarões e pitorescas
casinhas, uma praça bonita, ruazinhas bucólicas, igreja imponente, capela
histórica. A vida era pacata. As pessoas se conheciam e conviviam. Tinha
esportes, festas, bailes, cinema aos sábados e domingos, carnaval, São João na
rua. Tinha a professorinha, os fofoqueiros, as mocinhas encantadoras, os
rapazes pretensiosos, as lavadeiras. Tinha até uma rua inteira de cabarés, a
rua do Gango, paralela à principal avenida da cidade. Tinha os senhores
circunspectos e os jovens bagunceiros. E todos convivíamos nas mesmas calçadas.
A OURO PRETO DO RN
Sempre digo, não sem algum exagero, que seríamos
a Ouro Preto do litoral. Se tivéssemos preservado os casarões, os solares, as
ruazinhas operárias, a igreja matriz original, a rua do Gango, o Parque José
Varela, a praça principal, o rio Jundiaí, o campo do Cruzeiro, os cinemas, o
mercado e o seu largo, as árvores da rua da Conceição e as fofoqueiras da rua
da Cruz, seríamos atração turística nacional.
DESCARACTERIZADO
Não conheço cidade no Rio Grande do Norte que
tenha passado por um processo tão radical de destruição da sua paisagem urbana.
De tudo o que citei, restaram 10 prédios. Conto um em cada dedo das mãos. Dói
falar disso. Mas está tudo absolutamente descaracterizado. Mas vou agora
lembrar os que ainda resistem e estão numerados nos meus dez dedos das mãos: o
Solar do Caxangá, o Solar da Madalena e o Solar Mourisco. A igreja matriz, a
capela de São José e o Pax Club. A prefeitura, a casa de Gilvan e Helena, a
casa onde nasceu Henrique Castriciano e o Ferreiro Torto. E olha um dedo a mais:
a casa de Luís Damasceno, onde morava os irmãos Lobo e Mosquito. Ah! E as
belíssimas casa de Cícero Luis e de seu Alfredo Mesquita.
FERREIRO TORTO
O Solar do Ferreiro Torto está preservadíssimo.
O da Madalena, do Caxangá e do Mourisco também, embora asfixiado por um
crescimento urbanisticamente desastroso e asfixiante. Gostaria de citar o bar
do Gato Preto e o Miramar, mas o tempo comeu.
NÃO HÁ TECLA REPLAY
Sinto falta de 40 anos no tempo. Aí, Macaíba e
eu seríamos outros. E, acreditem, bem melhores. Como otimista, diria: para
tornar o lugar melhor, apertar a tecla replay. Como realista, digo: não se
conserta cristal partido.
FIGURAS DE TREMER AS BASES
Como menino, adolescente e jovem, pude fazer
muita coisa, alguma delas impublicáveis à época e hoje de uma inocência atroz.
Se eu falar nos nomes de Pabel (foto), Romeu(foto), Nidinho, Chiboca, Toinho
Sargento, Boanerges, Heriberto, Boneco, Gilson Matias Dias, só para citar
alguns, os moradores de então vão tremer nas bases. Se eu falar o que outros fizeram,
como meu irmão Haroldo, Leonardo, Kaká, os irmãos Cambuíta, Batista de seu
Lucas, Silvan, Diógenes da Harley Davidson, Babão, Pirralha, Capiroto,
Chaguinhas, Chico Pezinho, Chico Cobra, Edilson de seu Romão e Edilson de seu
Edmilson, aí a cidade tomba de vez.
FONTE – TRIBUNA DO NORTE